Vendo a Finlândia de fora

O que os finlandeses percebem quando veem a Finlândia de fora e que pontos de vista levam consigo quando visitam outros países? Perguntamos a cinco jornalistas finlandeses com uma vasta experiência de trabalho no exterior.

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Como você vê a Finlândia quando pode combinar o conhecimento de um local com a perspectiva obtida depois de viver em outro lugar?

Cinco repórteres finlandeses nos dizem o que eles gostariam de trazer para a Finlândia dos países onde eles viveram e trabalharam  e o que eles poderiam levar para aqueles lugares da Finlândia. E não estamos falando sobre o pão de centeio finlandês, queremos levar a conversa para outro nível. As histórias são divertidas e reveladoras.

Diferentes conjuntos de habilidades

Heidi Lipsanen atuou como correspondente temporária no Brasil para a Yle, a empresa de radiofusão finlandesa, em duas ocasiões diferentes e desde a década de 1990 já fez várias idas e vindas para o Brasil.

Cerimônia de abertura: no Brasil, Heidi Lipsanen cobriu a Copa do Mundo de 2014 e as histórias em torno dela para a Yle, a empresa de radiofusão finlandesa.Foto: Cortesia de Heidi Lipsanen

Os brasileiros são perfeitos diplomatas com habilidades sociais naturais, mestres em quebrar o gelo e evitar conflitos. Eles sempre caminham de maneira criativa por situações desafiadoras “dando um jeito”, como diz a expressão brasileira.

A palavra em português que eles usam para isso é “jeito”, também usada no diminutivo “jeitinho”. A característica é ao mesmo tempo atraente e perigosa.

Atraente, porque a fé em se encontrar uma solução torna os brasileiros eternos otimistas. Apesar da forte auto-ironia  e do senso de humor, eles são fáceis de socializar.

Perigoso, porque a atitude também se torna facilmente um viveiro para a corrupção.

Ultimamente, o Brasil está mais associado a uma cultura de corrupção do que  ao delicioso otimismo de seu povo. A última característica poderia, no entanto, ajudar aos finlandeses, tão sérios, a verem o mundo como um lugar mais alegre. O otimismo aumenta a criatividade e garante o sucesso nas situações sociais, algo que poderia ajudar a reduzir uma certa tendência finlandesa com relação à inflexibilidade.

Felizmente, a atitude positiva brasileira é contagiosa. Quando chego em casa do Brasil, a atitude permanece comigo por algum tempo, até o inverno trazer um toque de melancolia. No entanto, essa pensatividade também pode ser aconchegante durante o frio inverno finlandês.

De volta ao Brasil, há momentos em que podemos nos sentir especialmente nostálgicos sobre o modo de vida finlandês. Um bom exemplo desses momentos é quando atravessamos a rua. O tipo de cortesia que recebemos dos motoristas finlandeses é ausente.

Uma senhora finlandesa que morava no Brasil ao mesmo tempo que eu, uma vez analisou a cultura brasileira de acordo com a forma como as pessoas dirigem e extraiu algumas conclusões interessantes. Os brasileiros são educados, desde que haja contato pessoal. Atrás do pára-brisas ou no telefone, eles deixam de lado suas habilidades sociais, argumentou ela.

Um pouco da paciência finlandesa e do senso de responsabilidade poderiam tornar a vida mais agradável para os pedestres enquanto ajudariam a reduzir acidentes de trânsito desenfreados em um país onde o carro é rei.

Simpatia sem esforço

Paula Vilén trabalha como correspondente nos EUA para a Yle, a empresa de radiofusão finlandesa, em Washington, DC.

Paula Vilén prepara-se para fazer um relatório de rádio ao vivo em uma cabine de imprensa na Assembléia Geral da ONU em Nova York.Foto cortesia de Paula Vilén

Dos EUA, eu definitivamente levaria para a Finlândia a simpatia sem esforço dos americanos. Sua vida torna-se muito mais agradável quando você é saudado com um sorriso e pode conversar com pessoas aleatórias no ponto de ônibus ou na cafeteria. Claro, isso faz dos EUA um paraíso para um jornalista que está disposto a falar com tantos americanos quanto possível sobre todos os tipos de tópicos.

O DNA americano inclui a capacidade de tornar nossos encontros diários uns com os outros fáceis e felizes. Eles usam as palavras “oi”, “obrigado” e “desculpe-me” com frequência e eles realmente têm uma habilidade ou gene especial que os permite lembrarem seu nome quando falam com você. Isso faz você se sentir especial e bem-vindo. Alguns podem alegar que tudo isso é artificial, mas, mesmo que seja, eu prefero muito mais que seja assim do que indiferença e insensibilidade.

O melhor presente que a Finlândia poderia dar aos EUA seria certamente o jeito de fazer as coisas de forma eficiente e organizada. Um finlandês tem dificuldade em entender por que algumas coisas normais e simples, como registrar seu carro,  exigem tanto tempo e tanta burocracia. Na Finlândia, você provavelmente encontrará uma maneira de fazer isso online e sairá com tudo pronto.

E para todas as mulheres e famílias americanas, espero que os EUA sigam um caminho mais parecido com o da Finlândia quando se trata de políticas de maternidade e licença parental. As mulheres americanas ficam de queixo caído quando eu falo sobre as generosas regras de licença-maternidade da Finlândia. A sociedade americana, que valoriza famílias e ama crianças, possui uma estranha discrepância em não atender melhor às necessidades das famílias. Ter que usar seus dias de licença-médica e tempo de férias para poder estar em casa com seu bebê recém-nascido? É sério?

Modo de vida

Katriina Pajari é a correspondente na China e na Ásia, baseada em Pequim para o Helsingin Sanomat, o maior periódico da Finlândia.

Katriina Pajari faz uma pausa para posar em Xangai.Foto cortesia de Katriina Pajari

Aqui está um pensamento que eu tenho quase todos os dias: se os chineses soubessem como fazer filas como os finlandeses.

Estou exagerando para fazer um ponto, é claro. A China tem pessoas que sabem como formar uma fila da mesma forma que existem finlandeses que não sabem. Mas ainda assim, eu aposto que eu poderia enriquecer importando e comercializando a habilidade de formar filas na China.

Não se trata apenas de ficar na fila. Nós, finlandeses, parecemos preprogramados com algum tipo de ordem, enquanto os chineses parecem ser exatamente o oposto.

Na China, é a lei do mais ágil, seja na fila no banco, no balcão de frutas, no banheiro ou na verificação de segurança no aeroporto. Se houver algum tipo de lacuna na sua frente, mesmo que na Finlândia essa distância nem seja considerada uma lacuna, várias pessoas tentarão entrar.

Em uma piscina finlandesa, pessoas nadam no lado direito da raia. Aqui na China, haverá alguém nadando à direita, outra pessoa à esquerda, alguém nadando transversalmente pelas pistas e uma pessoa apenas flutuando no meio.

Quando eu fui ao banco, eu levantei cedo para não ter que ficar na fila. Fui a primeira na porta. Mas quando eu peguei meu número de senha, eu era a décima sétima, tendo sido ultrapassada pelos locais. Eu realmente não sei o que aconteceu.

Eu não acho que as pessoas passam a frente das outras por mal, nem acho que eles percebem que estão fazendo isso. Eles estão acostumados a lidar com um número enorme de pessoas, onde você precisa ser determinado e cuidar de si mesmo.

Mas os finlandeses poderiam aprender algo com os chineses: sobre como manter a calma numa multidão sem se tornarem claustrofóbicos, como dançar em um parque, dormir em um ciclomotor estacionado ou bater um papo com os filhos de alguém. Essas são coisas que eu amo na China.

A espontaneidade não é tão fácil

Iida Tikka reporta notícias internacionais para a Yle, a empresa de radiofusão finlandesa.

Levada de volta para a Rússia repetidas vezes: Iida Tikka cobriu a visita do presidente finlandês Sauli Niinistö ao Fórum Ártico em Arkhangelsk, Rússia, no início de 2017.Foto cortesia de Iida Tikka

Ao longo dos últimos quatro anos, eu vivi indo e vindo da Rússia, primeiro estudando e depois trabalhando como jornalista. Toda vez que eu me afasto, de algum modo acabo retornando, mesmo a vida na Rússia não sendo sempre tak prosto (tão fácil), especialmente para uma jornalista. Isso significa lutar contra os burocratas, aprender a refazer rapidamente todos os seus planos quando aparece um obstáculo e aprender a ir adiante, dormindo pouco ou até mesmo nada, por vários dias.

Ainda assim, a Rússia me atrai.

A razão é muito simples: a Rússia respira uma espontaneidade que a Finlândia não pode oferecer. Enquanto na Rússia, você realmente não tem como saber o que pode acontecer durante um dia. Você pode acabar na cozinha de um estranho, com um grupo aleatório de pessoas, discutindo as políticas culturais da União Soviética, ou em uma cabana fora da cidade na sauna dos avós do seu amigo – basicamente, pode acontecer qualquer coisa.

A possibilidade de um acontencimento espontâneo e imprevisível no dia-a-dia é algo que eu gostaria de trazer da Rússia para a Finlândia, país onde alguns dos meus amigos sugerem usar o Doodle (um aplicativo para encontrar o melhor momento para uma reunião), apenas para reservar uma hora para uma xícara de café.

Ironicamente, o que a falta na Rússia e a Finlândia tem de sobra é a capacidade de planejar. Isso afeta tudo, por exemplo, como as cidades são construídas. Eu visitei cidades na Rússia, onde os subúrbios foram construídos no meio do nada e não houve nenhum plano para como eles deveriam se conectar à cidade. Isso sem falar das escadarias em muitos edifícios, onde algo tão simples quanto construir degraus iguais provou ser uma tarefa aparentemente impossível. Com apenas um pouco de planejamento, muitos desses problemas de infra-estrutura poderiam e deveriam ter sido resolvidos.

Então, a mentalidade finlandesa, onde tudo está bem planejado do início ao fim, é definitivamente algo que eu traria da Finlândia para a Rússia.

A Criatividade do “faça você mesmo”

Heidi Liekola é repórter e editora (TV, web, social) com o grupo de transmissão do serviço público sueco em Estocolmo.

Câmera no lugar: Heidi Liekola prepara-se para gravar.Foto cortesia de Heidi Liekola

Faz 20 anos que deixei a Finlândia e vim para a Suécia, a amada e, ao mesmo tempo, vizinha insuportável. À primeira vista, a Suécia e a Finlândia são bastante semelhantes. Mas depois de um tempo você começa sentir falta das muitas coisas que o voo de uma hora ou a viagem de barco durante a noite entre os países não podem trazer da Finlândia para a Suécia.

O “faça você mesmo” finlandês também é sobre ser o quem você quer ser. É a individualidade. É a coragem de seguir seu próprio caminho. É também sobre peculiaridades. Quero dizer, quem mais senão um finlandês poderia apresentar a idéia de fazer sua própria vodka de alcaçuz (na verdade salmiaki, uma iguaria finlandesa à base de alcaçuz)? Trata-se de fazer grandes coisas sem fazer barulho sobre isso.

Na verdade, os finlandeses deveriam  se preocupar com isso e com eles próprios. Hoje em dia parece que está começando a acontecer. Mas ainda assim, essa é a parte em que a Finlândia deveria considerar importar da mentalidade sueca: colaboração para ter sucesso.

Quando a tendência da massa fermentada estava no seu melhor momento, em Estocolmo havia padarias sendo abertas por todos os lugares. Uma delas começou a oferecer um hotel especializado em massa fermentada para todos os padeiros caseiros. A mídia entendeu: as pessoas poderiam deixar suas massas fermentadas lá, bem guardadas, durante as férias e, assim, a padaria ganhou publicidade. O sucesso traz mais sucesso e os suecos têm a capacidade de colaborar para alcançá-lo.

Here’s something to try: The recipe for taking Finnish DIY ideas to the next level – remember where you read it first – might just be to hire a Swede to “dress them for success.”

Aqui está algo para se tentar: a receita para levar as idéias do “faça você mesmo” finlandês para o próximo nível (lembre-se de onde você lê isso em primeira mão) pode ser apenas contratar um sueco para “vesti-los para o sucesso”.

Dezembro de 2017

 

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