Água espirra em no rosto enquanto alguém ao meu lado grita com empolgação. O bote dispara em direção a uma enorme pedra, mas desvia no último segundo, continuando em alta velocidade pelas corredeiras.
Naquela mesma manhã, às margens do rio Kitka, perto do vilarejo de Käylä, os guias de ecoturismo Tuomas Törmänen e Joonas Koskinen informam o que precisamos saber antes da aventura.

Guias experientes, como Tuomas Törmänen (à esquerda), fazem uma breve introdução antes de entrarmos na água.
Hoje enfrentaremos sete corredeiras, todas indicadas para iniciantes. Segurança em primeiro lugar.
“Mantenham sempre as mãos e os pés dentro do bote”, orienta Törmänen. “E remem somente quando eu mandar”.
Com coletes salva-vidas, capacetes ajustados e botas bem amarradas, é hora de partir.
Primeira corredeira, primeiros gritos

Famosa pelos invernos com muita neve, Kuusamo também encanta no verão, quando o sol da meia-noite prolonga a luz natural até tarde da noite.
“Nossa! Isso é muito melhor do que qualquer brinquedo de parque de diversões!”, grita Luukas, de dez anos.
Käylänkoski, a primeira corredeira, ficou para trás. Embora seja longa e relativamente tranquila, ela proporciona uma boa dose de adrenalina para quem está mais acostumado à terra firme. Confesso que passei boa parte do percurso remando de olhos fechados.
Depois da emoção, o rio volta a ficar calmo. É momento de admirar a paisagem ao redor: florestas de pinheiros com margens de areia e águas cristalinas, onde é possível ver peixes logo abaixo da superfície. Os tradicionais chalés de verão aparecem entre as árvores ao longo das margens.

Localizada ao sul do Círculo Polar Ártico, Kuusamo é facilmente acessada de avião ou ônibus.
A Finlândia é repleta de lagos, rios e corredeiras cristalinas. Por isso, seus habitantes fazem questão de aproveitar essas maravilhas da natureza. Nos arredores de Kuusamo, há várias empresas de turismo que levam visitantes para explorar os rios com segurança. Entre elas, a Basecamp Oulanka, responsável por nos guiar durante o passeio. Tem espaço para todos.
Morando no sul do país, Luukas veio a Kuusamo com a família para passar as férias de verão com os avós. Há anos, eles sonhavam em fazer rafting, principalmente porque a mãe já havia enfrentado corredeiras muito maiores em diferentes países da Europa.
Agora que as crianças cresceram, três gerações finalmente podem viver juntas a experiência.
“Mal posso esperar pela maior corredeira de todas”, diz Mai, de 12 anos, cheia de expectativa.
Girando nas corredeiras

Kuusamo oferece aventuras de rafting para todos os níveis de habilidade. Nos trechos mais fáceis, não é necessário ter experiência prévia.
De repente, um pato-olho-dourado levanta voo quando nos aproximamos da próxima corredeira, Peurakoski.
Primeiro, remamos com força. Então Törmänen grita: “Agora!”
Todos puxam seus remos para dentro do bote. A embarcação entra na correnteza e começa a girar com a força da água. Ondas quebram sobre nós enquanto gritamos e rimos ao mesmo tempo.
Poucos segundos depois, tudo volta ao normal.

Arto Kajava (à esquerda) nasceu e cresceu em Kuusamo. Seus netos, Nooa e Mai, adoram passar o tempo na natureza selvagem do norte.
Nooa, de 11 anos, tira a água da bota. Suas meias estão encharcadas.
Durante a temporada de rafting, Törmänen conduz cerca de cem percursos pelos rios da região. Ele conhece cada corredeira como a palma da mão.
Nascido e criado em Kuusamo, ele chegou a morar alguns anos no sul da Finlândia, mas decidiu voltar para o norte.
“Aqui existe inverno de verdade,” afirma. “Senti falta disso. Pertenço a esse lugar.”
O desafio das corredeiras mais difíceis

Alguém caiu do bote? Nada disso. Um dos participantes apenas resolveu mergulhar para se refrescar do calor.
Para cruzar os trechos mais tranquilos, Törmänen liga o motor do bote. A essa altura, enfrentar as corredeiras parece rotina.
Até surgir Harjakoski, o trecho mais intenso do percurso.
Na escala internacional de I a VI, ela recebe classificação III, ou seja, é considerada difícil. Quedas acentuadas, ondas altas e muita turbulência nos esperam.
Veja como é a experiência de descer corredeiras bem no meio da natureza selvagem da Finlândia.Vídeo por Tuomas Törmänen
Todos parecem tensos, guardando celulares e câmeras em bolsas impermeáveis. As botas pisam com mais firmeza no bote.
“Remem!”, Törmänen grita, abafando o som da água.
A embarcação avança, enquanto as ondas quebram sobre nós. Sinto um frio na barriga quando o bote despenca pela correnteza.
E, de repente… tudo acaba. O alívio é imediato.
Um final perfeito

Mesmo no fim da noite, o céu do norte da Finlândia nunca escurece completamente.
Depois da última corredeira, os aventureiros aproveitam para mergulhar no rio. A temperatura da água, em 20 °C, é maravilhosa após uma aventura como essa.
Muitos viajantes já descobriram o exótico inverno da Lapônia, mas o verão no norte da Finlândia continua sendo um tesouro pouco conhecido. O período oferece calor agradável, luz natural por mais tempo, natureza extraordinária e, acima de tudo, muito silêncio.

Mai espera que a família volte em breve para descer novamente as corredeiras.

Depois de mergulhar para se refrescar, Luukas recebe ajuda do avô, Arto Kajava, para voltar à embarcação.
Quando chegamos ao vilarejo de Juuma, já havíamos percorrido cerca de 14 quilômetros pelo rio.
“Foi tão divertido”, diz Luukas, sorrindo.
“Com certeza voltaremos no próximo verão”, completa Mai.
Na margem, duas renas descansam tranquilamente sob o sol.
Kuusamo e o rio Kitka

No extremo norte da Finlândia, o verão ainda guarda a sensação de um mundo secreto.
- Kuusamo fica no nordeste da Finlândia, logo abaixo do Círculo Polar Ártico.
- A região é conhecida por suas florestas, rios, trilhas e atividades ao ar livre, praticadas durante o ano inteiro.
- Os percursos de rafting variam desde passeios tranquilos para famílias e iniciantes até corredeiras que exigem mais experiência.
- Durante o auge da estação, o fenômeno do sol da meia-noite mantém o céu claro até tarde no norte da Finlândia. Em Kuusamo, há apenas algumas horas de crepúsculo antes que o dia recomece.
Texto e fotos por Emilia Kangasluoma, julho de 2026