Primeira Bienal de Helsinque destaca laços entre natureza e seres humanos

As pessoas que pegarem a balsa e fizerem a viagem de 20 minutos até a ilha de Vallisaari, no verão de 2020, poderão se conectar com arte e natureza, ao mesmo tempo, na primeira Bienal de Helsinque.

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Vallisaari, uma das 330 ilhas que compõem o Arquipélago de Helsinque, teve sua importância do ponto de vista geopolítico sueco e russo há 200 anos. Mais tarde, foi também um ponto estratégico de defesa da cidade, usado pelas forças finlandesas.

Valli significa “aterro” ou “muralha” e saari significa “ilha”. Hoje, a flora e a fauna de Vallisaari e as fortificações preservadas a tornam um destino atraente para quem procura natureza na região da capital. O cenário também é pitoresco: você tem vista para o mar, para as ilhas vizinhas e para as torres de Helsinque.

A oportunidade de misturar natureza e arte é o motivo pelo qual os organizadores escolheram Vallisaari como o local da primeira Bienal de Helsinque, um evento internacional de arte com entrada gratuita e obras contemporâneas, que acontecerá de 12 de junho a 27 de setembro de 2020.

Arte no arquipélago

Nas oficinas de inverno e primavera no Museu de Arte de Helsinque, as pessoas podem fazer crochê de “recifes de coral”, usando fios e plástico reciclado, parte do projeto Crochet Coral Reef, liderado por Margaret e Christine Wertheim e seu Institute for Figuring (foto da Galeria Mary Porter Sesnon, Universidade da Califórnia Santa Cruz). Foto: Instituto de Artes e Ciências, UCSC

“Vallisaari tem uma atmosfera excepcional”, diz a artista plástica finlandesa Maaria Wirkkala, cujo trabalho será exibido. “É como uma zona tocada por alguma força desconhecida, pois há algo lá que revela parte de nossa memória coletiva, uma parte que não temos mais palavras para descrever”.

A ilha está aberta ao público desde 2016. Fortificações militares foram construídas nos anos 1800 e, em 1937, um arsenal cheio de explosivos explodiu, matando uma dúzia de pessoas. Vallisaari era o lar de uma pequena vila na década de 1950, mas foi esvaziando gradualmente. A ilha está desabitada desde a década de 90.

“A combinação de seu ambiente construído e história encerrada, além da vida selvagem e do meio ambiente indomados em pequena escala, a torna um local especial para um artista”, diz Wirkkala.

Vitrines de todo o mundo

Gustafsson & Haapoja (escritora Laura Gustafsson (esquerda) e artista Terike Haapoja), conhecidas por instalações que combinam texto, arte visual e performance, são participantes da primeira Bienal de Helsinque.
Foto: Terike Haapoja

Cerca de 35 artistas da Finlândia e de todo o mundo exibirão suas obras ao ar livre e em construções históricas e depósitos de pólvora em Vallisaari. Também serão exibidas exposições no Museu de Arte de Helsinque, no centro da cidade, e em eventos via satélite na capital.

Um pavilhão pop-up de madeira, uma construção à beira-mar entre o Old Market Hall (antigo mercado) e duas novas docas, servirão como ponto de partida das balsas para a ilha. Os clientes também poderão pegar balsas na rota circular da ilha, entre Vallisaari, Lonna e a fortaleza da ilha de Suomenlinna, um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Combinando com o ambiente da ilha

De Vallisaari, você pode ver parte do arquipélago e as torres do centro de Helsinque ao fundo.Foto: Bienal de Helsinque

 

Os artistas incluem Paweł Althamer, Katharina Grosse, Gustafsson & Haapoja (uma dupla composta pela escritora Laura Gustafsson e a artista Terike Haapoja), Hanna Tuulikki, IC-98 (outra dupla, Visa Suonpää e Patrik Söderlund), Marja Kanervo, Tadashi Kawamata, Alicja Kwade, Laura Könönen, Tuomas A. Laitinen, Jaakko Niemelä e Mario Rizzi. Outros participantes serão anunciados à medida que a estreia se aproximar.

Todos foram convidados a criar exposições que se misturam com o ambiente da ilha. Para esse fim, os organizadores da primeira Bienal de Helsinque escolheram um subtítulo: The Same Sea (o mesmo oceano), enfatizando a interdependência entre a natureza e os seres humanos.

Pirkko Siitari e Taru Tappola são as principais curadoras. Em um comunicado de imprensa, elas explicam: “A crise ecológica significa que estamos agora à beira de enormes mudanças, e isso está definindo nosso futuro comum em todos os lugares. “The Same as Sea” refere-se a esta situação. Assim como o oceano é uma totalidade complexa e inconstante que ultrapassa todos os limites e parece diferente, dependendo da perspectiva.”

Entendendo como agir de forma sustentável

As veneráveis construções de Vallisaari, raramente abertas ao público, formam o cenário de algumas das exposições da Bienal de Helsinque, enquanto outras peças permanecem ao ar livre.
Foto: Bienal de Helsinque

A Bienal de Helsinque se une à BIOS Research – uma organização finlandesa que estuda a relação entre o meio ambiente e a economia, a política e a cultura – para garantir a sustentabilidade do evento.

“Muitos dos trabalhos refletirão sobre a natureza, processos e tecnologias biológicas, mas também sobre a interação e empatia humanas, bem como noções de tempo e história”, diz a diretora de eventos Maija Tanninen-Mattila.

“‘The Same Sea” é uma metáfora de interconexão. Para sobreviver e, talvez, resolver a crise ecológica, é crucial entendermos a dependência mútua entre nós, nosso meio ambiente e todos os seres vivos – e agir de acordo com esse entendimento. ”

Conversa com a ilha

A arte da finlandesa-britânica Hanna Tuulikki, participante da Bienal de Helsinque, contém elementos de performance, música, dança, figurino e desenho. Foto: Perttu Saksa

Tanninen-Mattila diz que os desafios de criar uma exposição em uma ilha ambientalmente sensível são muitos. “Trabalhamos em estreita colaboração com biólogos de conservação da natureza e autoridades do patrimônio na colocação das obras de arte ”, disse ela. “Também escolhemos obras de arte que podem sobreviver em condições não-museológicas, e a maioria das obras é temporária.” Muitos dos participantes estão criando suas peças no local, na própria ilha.

“Os artistas acharam Vallisaari um lugar inspirador e criaram suas obras de arte em diálogo com ele. Essa configuração cria poderosos encontros entre lugar, arte, natureza e visitantes. Também esperamos alcançar novos públicos que visitam a ilha, mas não veem a arte contemporânea como tal.”

Por Michael Hunt, fevereiro de 2020

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