Série Educação na Finlândia sob olhar brasileiro

Entrevista com Evelyse Eerola e Silvia Mutanen, que compartilham a sua visão crítica pessoal sobre a sociedade e a educação finlandesa.

ler artigo

Conversei com Evelyse Eerola, brasileira, gaúcha, pedagoga, cinco anos morando na Finlândia e Silvia Mutanen, psicóloga paulista que está aqui há quase três anos. Elas estão produzindo a série de vídeos na internet “Educação na Finlândia”. Na entrevista elas compartilham a sua visão crítica pessoal da sociedade e dão pistas sobre o segredo da educação finlandesa.

O projeto cultural da Evelyse começou na rádio com o programa Nossa Língua com a ideia de auxiliar e integrar a comunidade de língua portuguesa à cultura finlandesa. O sucesso do programa fez com que elas resolvessem partir para o vídeo.

O que levou vocês a mudarem de mídia e fazer uma série sobre “Educação na Finlândia”?
Evelyse: Na rádio vimos o interesse do Brasil em mandar vários professores para Finlândia à procura de um modelo de educação. Então nós resolvemos falar, desmistificar e tentar analisar qual é o segredo, será que dá para importar um modelo? Resolvemos pegar o desafio, começamos desde a creche até a faculdade comentando como é o processo de educação na Finlândia. E no Brasil, muitas pessoas são os nossas ouvintes que planejam vir para cá e qualquer informação da Finlândia em português é como se fosse ouro para eles.

2851-classroom550px-jpg

A Evelyse filmando material na escola de Livisniemi em Espoo para falar do tema ensino fundamental.Foto por Silvia Mutanen

E qual é esse segredo que faz da Finlândia ter uma das melhores educações do mundo?
Nós entendemos que a base desse segredo está na sociedade, não exatamente dentro da sala de aula. A sociedade é que faz a educação melhor. Talvez se pegássemos esse modelo e levássemos para outros países, dependendo do país não ia dar certo. Não é a infraestrutura, embora a infraestrutura seja maravilhosa. Nós temos também no Brasil boas infraestruturas mas não é esta a questão. É a sociedade, são as crianças que já vem com uma base muito boa desde casa, de leitura, de interesse, a propia tv, você ouve inglês e as crianças ja vão aprendendo, aqui passam documentários, os programas infantis têm uma proposta pedagógica.

Como vem se trabalhando a questão das diferenças culturais dentro das escolas?
Os professores ainda não entendem as reações das crianças de outras culturas. Por exemplo, o finlandês não é muito de falar e eles acham que a pessoa já deveria saber, só que em povos latinos não existe o “deveria”, existe o “repete de novo” o que é para fazer, porque faz parte da gente, do próprio nível de concentração e isso os professores têm dificuldades em entender. Aqui desde cedo as crianças leem , vêm livro, desenham e tal. Aí você pega uma criança que nunca pegou lapis na vida e vai pegar quando entra na escola. O que ela vai pensar da escola? A escola vai ser um horror, aquele lugar que a obriga. O finlandês entra reconhecendo a escola como uma parte da sua casa porque na sua casa tem livros, tem lapis de cor, os próprios pais leem muito. Os professores teriam que ter todo um preparo para entender bem as diferenças e deveria existir o diálogo para que ambos pudessem se entender.

Introdução resumida sobre a série Educação na Finlândia. Video: Evelyse Eerola

Quais são as principais diferenças entre o Brasil e a Finlândia na formação de um cidadão?
O ideal é os pais verem a parte positiva de ambas culturas, acoplar e tirar o que é negativo. O que tem de bom na cultura latina é o culto a familia, de almoçar juntos no domingo, de pai e filho ter uma amizade e isso eu cultivo na minha casa. Toda parte negativa que é mimar o filho, dar dinheiro, dar brinquedo sem trazer responsabilidades eu corto foro. Ai eu pego a parte positiva da Finlândia e ponho na educação do meus filhos que é da responsabilidade, das tarefas senão não ganha mesada. Toda parte negativa eu ponho fora, essa questão de distanciamento da familia, de largar o filho com 12 anos e “se vira” ou do filho que comença a responder para os pais.

Como está sendo o processo de intregração entre as duas culturas?
Os finlandeses adoram os brasileiros. Eu aprendi a valorizar o Brasil aqui na Finlândia porque nunca nenhum finlandês falou mal ou pegou a questão da favela, da corrupção, da violência, eles sempre falam de coisas boas, então é muito interessante a vissão deles. Eu mudei um pouco através dos olhos dos finlandeses.

Como vocês definem o povo finlandês?
É um povo muito honesto, que vem de un senso de comunidade muito grande. O finlandês é muito ligado a leitura, ele é capaz de comprar um livro se vai viajar para algum lugar, ele lê o livro , vai ter conhecimento que é admirável. Achamos que é um dos países mais éticos que já vimos. No Brasil, existe a moral mas ela vem da religião, na Finlândia existe a ética e ela é o caminho para a sociedade perfeita, é você fazer as coisas certas não porque uma religião está mandando mas porque você sabe que é uma peça importante dentro de uma sociedade e que a sociedade funciona se você fizer as coisas certas.

Qual é o próximo passo para continuar conectando as duas culturas?
Evelyse: Na rádio vimos o interesse do Brasil em mandar Saimos finalmente da teoria para prática. Agora começamos a agir e criamos o grupo Cultural Gente Brasileira. Oferecemos aulas de português para as crianças e aula de leitura para os menores. Também organizamos palestras sobre educação, como das crianças bilíngues e agora vamos falamos sobre os índios do Brasil. A biblioteca de Sello em Espoo se dispôs a ajudar, nos deram sala e estão nos dando uma grande força.

 

Por Gustavo Alavedra, abril de 2012

Links