Na Finlândia, o disc golf voa alto

O disc golf virou um fenômeno no país, impulsionado por campos públicos gratuitos, por uma cultura de esportes ao ar livre e pela impressionante safra de atletas de elite.

Os finlandeses adoram estar ao ar livre. Para alguns, isso pode parecer surpreendente, considerando os extremos da Mãe Natureza nessa região. Neve, chuva congelada soprando de lado ou as torrenciais pancadas de novembro não são suficientes para manter as pessoas dentro de casa. Não acredita? Basta observar alguém pedalando a 20 graus Celsius negativos. Logo depois, outra pessoa. E mais outra.

O esporte faz parte da rotina finlandesa: trilhas de corrida e esqui cortam as florestas, academias ocupam os parques e ciclovias marcam a entrada até das menores cidades.

Jogue de graça

Eveliina Salonen, uma mulher sorridente trajando boné branco e jaqueta azul da equipe finlandesa, ergue o braço depois de lançar um disco vermelho na direção da câmera.

Eveliina Salonen completou o Grand Slam de Carreira em 2026, tornando-se apenas a terceira mulher a conquistar os quatro principais títulos do disc golf. Ela passa boa parte da temporada competindo nos Estados Unidos e suas aparições em competições na Finlândia tornaram-se raras.Foto: SFL / Marika Salmi

No cenário da prática de esportes ao ar livre há uma extensa rede de campos públicos gratuitos de disc golf. Mas, qual a extensão disso? A Finlândia já tem mais de 1.100 campos de disc golf. É o segundo país com maior infraestrutura no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A proposta do esporte é simples: como o próprio nome já diz, o disc golf adota o formato básico do golfe, substituindo tacos e bolas por discos. Enquanto os buracos são representados por cestas metálicas. E acesso gratuito é apenas um dos fatores que tornam a prática tão acessível.

“É tão fácil começar que qualquer pessoa pode jogar”, diz Eveliina Salonen, jogadora profissional de disc golf que vive em Pirkkala, perto de Tampere, no centro-sul da Finlândia. “Você só precisa de um disco. Dá para comprar um por cerca de dez euros, então é bem barato. “Além disso, por estar ao ar livre, você pode fazer uma caminhada tranquila de três horas sem sequer perceber que está fora.”

Salonen tem caminhado bastante. Muita gente, porém, já percebeu sua presença. Quatorze anos depois de pegar um disco pela primeira vez, em um campo público gratuito de Valkeakoski, ela chegou ao topo do ranking feminino.

Grand Slam e novas metas

Uma multidão de espectadores com roupas de verão em um campo gramado inclinado, cercado por árvores, durante um evento esportivo ao ar livre.

Salonen coloca o Tampere Disc Golf Center entre seus campos favoritos: “Talvez seja o mais difícil, mas foi construído especificamente para discos. “Acho simplesmente lindo.” Os Campeonatos Mundiais foram realizados em Nokia e Tampere em 2025.Foto: DGPT/Joe Pimenoff

Em junho de 2026, ela completou o Grand Slam de Carreira do disc golf, tornando-se a terceira mulher da história, apenas, a conquistar os quatro principais títulos da modalidade. Todas as caixas marcadas. Bem, quase todas.

“Depois que ganhei o Mundial, senti um vazio”, conta. “Agora preciso estabelecer novas metas, pois sou muito competitiva. Quero ganhar o máximo que puder e colocar meu nome entre as maiores jogadoras de disc golf do mundo.”

E ela pretende fazer isso à sua maneira. Para Salonen, existem longos intervalos entre os torneios. Para ela, treinar geralmente significa disputar uma partida descontraída com os amigos, deixando o grupo de lado apenas quando chega a hora de treinar putting com seriedade.

“Quando volto aos torneios, me sinto muito mais relaxada e tudo fica mais fácil”, diz.

De ponta a ponta no mapa

Silva Saarinen, uma atleta trajando uma jaqueta azul, inicia um arremesso com um disco vermelho em uma trilha cercada por floresta.

Os atletas de elite da Finlândia vêm de diferentes partes do país: Eveliina Salonen é de Pirkkala, perto de Tampere; Silva Saarinen (na foto), de Oitti, no sul finlandês; Henna Blomroos, de Rauma, na costa oeste; e Niklas Anttila, de Kuopio, no leste do país. Foto: SFL / Marika Salmi

A mesma camaradagem se estende ao circuito profissional. No cotidiano, Salonen, Silva Saarinen e Henna Blomroos vivem a horas de distância umas das outras. No circuito, porém, as principais jogadoras da Finlândia raramente ficam separadas. E isso aparece nos resultados: as três estão entre as melhores do mundo, enquanto Niklas Anttila também leva a bandeira finlandesa quase ao topo da categoria masculina.

Esses resultados na elite refletem a popularidade mais ampla do esporte no país. O disc golf ganhou um importante impulso em 2025, quando os Campeonatos Mundiais disputados em Nokia e Tampere se tornaram os primeiros realizados fora da América do Norte.

Niklas Anttila, um atleta usando agasalho, estende os braços depois de lançar um disco, observado por dois espectadores próximos que vestem camisas da seleção finlandesa.

O Campeonato Europeu volta à Finlândia em 2027, com os atuais campeões Eveliina Salonen e Niklas Anttila (na foto) entre os favoritos da casa. Foto: SFL / Marika Salmi

“Eles transmitiram pela televisão em um canal convencional, então muita gente que não conhecia ou não acompanhava o disc golf começou a assistir”, diz Salonen. “Depois disso, ouvi falar de muita gente que começou a jogar.”

O torneio ofereceu drama de sobra para espectadores novos e antigos. A finlandesa Iida Lehtomäki, de apenas 15 anos, liderou a competição feminina até boa parte da rodada final, antes de perder o posto e terminar como vice-campeã.

“Se eu vou a alguns campos públicos na Finlândia, eles estão cheios de jogadores juniores e adolescentes”, conta Salonen. “Eles encaram isso de forma muito profissional, e tentam imitar seus ídolos.”

Jogando em casa

Uma atleta trajando camisa polo rosa e boné preto lança um disco amarelo enquanto espectadores ao fundo, de pé na grama, a observam.

A Finlândia tem mais de 1.100 campos de disc golf, o segundo maior número do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. A maioria é gratuita. Foto: DGPT/Joe Pimenoff

O disc golf está prestes a ganhar ainda mais visibilidade na Finlândia. Pois o Campeonato Europeu desembarca em Tampere em julho de 2027, reunindo mais de 150 dos melhores jogadores representando mais de 25 países. Salonen estará entre eles, defendendo seu título europeu praticamente no quintal de casa.

Depois de passar boa parte da temporada nos Estados Unidos, competir no próprio país é um privilégio raro.

“Hoje, valorizo ainda mais poder jogar diante dos espectadores, fãs, amigos e familiares finlandeses”, diz.

Onde quer que jogue, um pedacinho da Finlândia viaja com ela.

“Eu adoro nosso chocolate, então levo chocolate e, às vezes, salmiakki [um doce de alcaçuz salgado] para meus amigos americanos e tento fazê-los comer.”

Salonen admite que, até agora, os americanos continuam nada convencidos pela famosa e controversa iguaria salgada da Finlândia.

Mas ainda há tempo. Quem acompanhar Salonen até Tampere em 2027 não terá dificuldade para encontrar salmiakki — nem disc golf de nível mundial.

Por James O’Sullivan, setembro de 2026